26/04/03

Beth Gibbons e Eu

Era suposto começar as 21:30 mas acho que devido a casa ainda năo estar cheia e a fila lá fora kilométrica,deram mais um tempo pro pessoal ir se chegando(e para acabarem de vender os bilhetes restantes,claro).Com 15 minutos de atraso, uma portuguesinha com saia de cigana abre o show, cantando, em ingles.Tipo, banquinho,voz e violăo. Algumas vezes sua voz tinha uns ecos de Fiona Apple, outras vezes de PJ Harvey.Pensei: "Ela tem talento" mas mudei de opiniăo alguns minutos depois. A cada intervalo de uma música a outra dava umas explicaçoes pretensiosas para as músicas: "Essa música é uma visao pseudo-sarcástica da morte" ou " Essa música fala da tristeza...(riso forçado) mas năo da tristeza óbvia,da tristeza positiva" e seguiu com um repertório que năo acabava mais.Afinal, penso eu, 98% das pessoas que ali estavam,pagaram para ver a Beth. Enfim, anunciou a ultima música (todo mundo disfarçadamente aliviado) agradeceu,em portugues,e foi-se embora.
Quase 22.30 e entram várias pessoas no palco, uns sete músicos.Dava para ver que ela estava lá ao meio perdida mas a escuridăo do palco nao dava para ver nada.Todos a postos, as luzes acendem e o Coliseu dos Recreios vai abaixo.Beth, de calça jeans justa e blusa preta de manga comprida, toda linda abre o concerto com a música que abre o seu disco solo e manda ver na soturna "Mistery". O jogo de luzes nao ajudava muito a identificar os músicos e Beth Gibbons.Só na segunda música, "Romance" (a melhor do disco,diga-se) que vemos quem é quem no palco.E é impressionante como sua voz nessa música parece mesmo com a de Billie Holiday. Em "Tom the model" o hit, todo mundo grita, faz barulho e mandam sinais para ela como se quisessem dizer "Agora sim!" e ela canta,sempre segurando o microfone com as duas măos levemente curvada,e faz cara de quem carrega uma cruz nas costas...agora vejo que é a verdadeira Beth Gibbons, a torturada, aquela mesma que nos emocionou com os discos maravilhosos do Portishead quem está ali, logo ali, há 3 metros de mim a cantar. No meio do espetaculo, apos várias músicas e Beth Gibbons tocar violăo e teclados, reparo que ela está em muito boa forma, "que corpăo!"-penso "ela ja deve ser uma quarentona".Eu sei, eu sei, mas é impossível năo reparar nestas coisas, afinal trata-se uma ESTRELA ali na minha frente.OK,agora uma pausa para os músicos e todo mundo pensa que o show acabou.começa o coro do berra-berra,bate-pé e tudo o mais que faça barulho para que eles voltem. Dois minutos depois a trupe volta, Beth toma uma aguinha e enquanto a banda se prepara vai lá atrás pega um cigarro, volta e pede fogo para alguém da platéia (poderia ser eu-pensei) agradece com um sorriso e se poe a postos para começar a cantar de novo.Uma garota duas cadeiras atrás de mim grita: "You are beautiful !!" e ela, surpresa, dá um sorrisăo e começa a cantar "Drake". Ainda com a voz da garota ecoando meio que se desconcentra da música, ri de novo e volta a ficar séria, agora concentrada e sofre mais uma vez.Segue-se uma cover do Velvet Underground (que eu nao conhecia) e "Rustin Man" fecha o concerto.Fim de espetaculo, é aplaudida de pé durante uns 5 minutos e diz qualquer coisa confusa, gesticula com as măos. Depois pede desculpa pelo que disse e é mais clara : "Desculpe, estava a tentar dizer "thank you" em portuguęs mas esqueci-me" e desce para a platéia e fica a dar autógrafos durante uns 15 minutos...Inesquecível.