21/12/09

Em defesa de 'Avatar'

Engraçado como se tem discutido muito onde está o 'cinema' em Avatar. Em quase todas as críticas que li - especialmente na imprensa portuguesa - há uma séria discussão e questionamento se a história que James Cameron quer contar é uma fachada por detrás do 3D. O crítico João Lopes (do DN) levanta questões séríssimas ali no seu blogue sobre o 'futuro do cinema' que já é tão mais velho que o próprio cinema. E num outro blogue que já não me lembro qual vi uma reflexão muito interessante sobre a 'morte' da convencionalidade em se contar uma história em favor das infinitas possibilidades que a 'tecnologia' pode fazer. Pessoalmente, essa discussão me interessa muito pouco. É difícil separar o que é realmente relevante nesta chuva de argumentos e o que só é conservadorismo inconsequente. Luís Miguel de Oliveira fez muita gente discutir - e cair matando - a questão dos óculos (no caso do visionamento em 3D) na caixa de comentários no Ipsilón online e, confesso, isso me dá uma canseira dos diabos. Como diria meu conterrâneo Macunaíma ai, que preguiça! Me lembro que na altura que saiu o 'The Blair Witch Project' (1999) houve - num outro contexto, exactamente o oposto do que se discute aqui - toda uma discussão sobre se 'aquilo' era cinema ou não. Eu vi muito e muito bom cinema em 'A bruxa de Blair' mas sou - do auge da minha reconhecida insignifância - a pessoa menos indicada para tentar discutir uma possível morte do cinema. Acho muito mais válida as discussões em torno das reacções emocionais e sensoriais que o cinema, ou aquilo ao que acostumamo-nos a chamar 'cinema' desperta em mim e nos outros como espectador do que qualquer outra coisa. Acho que essa é a verdadeira e mais importante questão. Fui ver 'Avatar' com algumas expectativas em relação à tudo o que tinha lido, sobre essa tal 'revolução' que Cameron trouxe para o cinema. Meia hora depois, passada a frustração em descobrir que 'aquilo' não era o futuro de coisíssima alguma, me deixei levar pela história do soldado tetraplégico em busca de redenção num mundo completamente desconhecido. A clássica parábola do auto-descobrimento, da viagem interior contada pela enésima vez. Saí da projecção e pouco me lembro do 3D, dos óculos ou da tecnologia 'jamais vista'. Sai de lá sem ter visto nada disso. Nem de uma tal famosa perseguição de 20 minutos me lembro. De facto, a experiência 3D do filme é um espectáculo visual eu diria que quase religioso, é um show à parte. E também que James Cameron tem sim essa maneira maniqueísta e simplória de 'ver o mundo', de contar uma história. Mas acho que é mesmo essa limitação narrativa, essa opção em deixar a subtileza em segundo plano, os dispositivos que jogam a seu favor. No final da projecção, ouvi meus amigos todos falarem em 3D, em tecnologia, e nos malditos óculos. O que eu vi foi um filme majestoso, daquelas aventuras clássicas dispostas a mexer com alguma coisa escondida dentro de cada um ali naquela sala. Mesmo que o cinismo nauseabundo faça bloqueios mentais, 'Avatar' é mais que um simples filme em 3D. É uma experiência sensorial. E quem se deixa levar por ela, tem garantida quase três horas de uma viagem apocalíptica sem volta.

4 comentários:

Nasp disse...

Excelente texto.....boa letra amigo :)


Nada oferece um criterio "universal" a liberdade de expressão é isso mesmo..

Mas é também aqui que cada um seguirá os criterios que bem entender....

Eu por exemplo não dou o minimo valor a esses criticos Portugueses que fazem criticas sobertudo para os jornais, e pegando nos Jornais (DN ou JN etc....etc) vejo sempre os mesmos nomes, penso que não existe digamos um misturar de gerações e opiniões e as vezes até parece que temos sempre o Citizan Kane como referençia soprema :)

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Já agora, um contributo para a discussão sobre a idea de cinema em "Avatar" - http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2009/12/para-que-serve-um-critico-de-cinema.html

Crisoca disse...

Completamente apaixonada e encantada com Avatar! Nem ao menos senti que se passaram quase 3h sentada naquela sala.

José Carlos Costa disse...

Talvez por estar envolvido com algumas outras questões, o filme me pareceu muito mais profundo do que na verdade parece. Eu particularmente, achei o filme fodístico e muito bem sacado, embora, falar que militar é filho da puta, é chover no molhado, mas partindo de onde partiu, o filme é muitíssimo nesses tempos escrotos que vivemos!