29/09/10

«Lola» de Brillante Mendoza é cinema a céu aberto

Uma vez, há alguns anos, um rapaz moçambicano que trabalhava na Cinemateca de Lisboa me disse que Juventude em Marcha de Pedro Costa era um filme para ser visto com camisa de forças, num cinema lotado e apertado no meio de uma fileira completamente cheia de pessoas, sem chance de escapatória possível. Me lembrei das suas sábias palavras quando vi o último filme do filipino Brillante Mendoza. 




Lola é um destes filmes, negro, grandioso e do qual é mais muito mais fácil fugir do que enfrentar. O filme conta a história de duas avós, uma à procura de enterrar o neto assassinado a outra de redimir o neto que perpretou o crime. O destino das duas avós se cruza e afecta a vida de todos à volta. 
Mas isso é mera desculpa para Brillante filmar, num tom quase documental, a dureza de se viver em Manila - capital das Filipinas -  e fazer um filme político, subversivo, a céu aberto (literalmente: chove o tempo todo) e discutir o valor da vida (e dos mortos).
Assistir Lola na sala escura é como segurar a respiração debaixo d'água pelo maior tempo possível para depois emergir aliviado, deixando para trás aquele cenário cruel que insistentemente volta a ecoar na memória após a projecção. As imagens de Manila são uma experiência visual maior que a vida e, por isso mesmo, maior que cada uma daquelas tristes personagens que improvisam dentro do seu universo caótico.

7 comentários:

Anónimo disse...

Vale a pena salientar o trabalho fabuloso da actriz Anita Linda o registo quase documental é ajudado pelo facto de não se enxergar a actuação dela. Ela é aquela senhora, esquecemos que estamos no cinema.

Jaime mesmo... disse...

Vale a pena salientar o trabalho fabuloso da actriz Anita Linda o registo quase documental é ajudado pelo facto de não se enxergar a actuação dela. Ela é aquela senhora, esquecemos que estamos no cinema.

Wellvis disse...

Muitíssimo bem lembrado, meu querido.
Eu cheguei a pensar que ela era uma amadora que foi encontrada para o filme e depois descobri que ela faz parte do "star system" filipino.

Beijão

Carlos Natálio disse...

Normalmente é o contrário, realizadores surpreenderem-nos com amadores que pensamos serem actores profissionais. Este foi ao contrário. Bom texto, Bom blog.
Abraço.

gonn1000 disse...

Começar um texto a elogiar "Juventude em Marcha" é a pior forma de recomendar um filme :P

Wellvis disse...

Olha, eu nem nunca vi o «Juventude em Marcha» (só o "quarto de wanda" o que ja valeu como introdução ao Pedro Costa)mas quando vi o «Lola» aquela frase coube tão bem ao clima do filme que era impossível não citá-la.
Não é um filme fácil, mas depois que assenta, fica grandioso.

Vais ver o Neil Marshall no Motelx?

gonn1000 disse...

Não, vou ver os U2 a Coimbra, lol...e perco isso e Scissor Sisters :(