1. A adoração, de toda a gente, por Amy Winehouse.
“O quê? Não gostas dela, nem da música dela? Além de seres um anormal, és sempre do contra!”. É mais ou menos aquilo que oiço quando digo, orgulhosamente, que não gosto nada dela. Da música, do fenómeno, do cabelo horrível e principalmente da toda euforia à volta dela (levando pessoas que não deveriam cantar, nem no banho, a invocar as suas vozes bem alto no metro daquela musiquinha irritante em que ela diz que não quer ir para uma clínica). Enfim, não vou dizer que ela canta mal. Voz tem. E muito boa por sinal. Mas não é a única. Para mim a Alice Russel canta tão bem ou melhor, tendo muito mais nível que Amy, mas como não dá tanto nas vistas nem tem problemas com a justiça, álcool e drogas vende bem menos. Sei respeitar os gostos dos outros. Conheço uma pessoa que gosta de Toy e não ando a espanca-la sempre que o encontro. Mas uma coisa é gostos variados e selectos, outra é uma onda de euforia estúpida criada pelos media dizendo que é uma diva à antiga com uma voz que não se ouvia já a algumas décadas, fazendo com que milhares de pessoas digam que aquilo é óptimo e ela é espectacular.Amy Winehouse é uma praga. Oiço-a quer na Radar, quer na Mega FM. Porra, não gosto NADA do que ela faz.
Entendo perfeitamente a embirração do Pedro com a Amy Winehouse. Eu mesmo tenho os meus ódios de estimação que são tótens da media e do público (exemplos: Bob Dylan, U2, David Lynch, Robert De Niro...) e não consigo entender a paixão suscitada à volta deles. Mas claro, respeitando as opiniões alheias, acho que, independente de se gostar de Winehouse ou não, acho que serão sempre pelas razões erradas. E lendo o editorial do Miguel Francisco Cadete na Blitz (edição de papel) deste mês - que por irónia traz a Amy na capa - encontrei a resposta ideal para o post do Pedro.
«Há, pelo menos, dois erros fatais no mundo da música. Ou em tudo o que está relacionado com comunicação. O primeiro e mais comum, é aquele que leva a confudirmo-nos com o mercado. Quer isto dizer que somos tentados a pensar que o estimável público tem um gosto semelhante ao nosso. O segundo erro é aquele que nos faz classificar canções ou artistas de acordo com os suportes mediáticos em que surgem. Exemplo: uma canção que faça parte da banda sonora de uma telenovela é automaticamente uma bimbalhice. O resultado destes dois erros costuma ser fatal. Mas eles são também muito mais comuns, e interligados, do que parece. Vem isto a propósito de Amy Winehouse. Mais do que às suas canções, a notoriedade de Amy deve-se às tropelias em que se tem visto envolvida e que são o pão-nosso de cada dia da imprensa tablóide britânica. (...) O certo é que Amy Winehouse ganhou reputação enquanto presença em certos media, como uma espécie de Paris Hilton, e daí se concluir que é uma artista comercialona, capaz de aproveitar a fome insaciável dos malditos tablóides. Estará portanto consumado o segundo erro: ao contrário de se ouvir a música de Amy Winehouse, ela é classificada e provavelmente criticada, pelo seu desempenho quotidiano mais ou menos privado. O contrário também é verdade e acontece quase tantas vezes. Que seria de Björk se, ao invés da capa na revista Wire aparecesse no Daily Mail ou no The Sun? Pior ainda, que era feito da credibilidade indie dos Radiohead se tivessem estado em alta-rotação na MTV desde o início da carreira? (...) O primeiro erro é muito mais fácil de ser diagnosticado. Acontece sem darmos por ele, todos os dias. É fácil, comum, e eu acrescentaria, ordinário. Porque não nos leva a tentar perceber a razão por que os outros gostam tanto daquilo que nós não gostamos. Agora a minha declaração de interesses: eu gosto de Amy Winehouse. Diria mesmo que ela é a maior artista do século XXI. Uma espécie de Keith Richards dos nossos dias, que passou pelas mesmas provações, castigos e desvarios. É sim, é intérprete de uma música que vale toda a pena ouvir. porque não faz parte de qualquer nova tendência inventada por estetas baratos - ou marketeers dispendiosos. Porque é real, autêntica e genuína em toda a encenação de um tempo impossível de se viver hoje. E isso, já se sabe, tem o seu custo por estes dias. obrigado Amy.»