05/09/08

Quando os críticos sabem demais

OUTRO DIA, sem querer, me vi no meio de um debate sobre crítica de música. Dizia lá um sujeito que crítico bom tem de ter conhecimento técnico. Apesar de eu não me considerar um crítico, só um mero colunista de música e olhe lá, sobrou para mim a defesa da "classe" contra as asneiras que o cara falava. Acho que alguma base técnica é até desejável, mas não essencial.Mais importante é entender da história do gênero musical a ser criticado, saber contextualizar as informações, não manjar só de música, escrever direito, não errar informação etc.Tinha na cabeça, como modelo, críticos da qualidade de um Simon Reynolds, inglês da minha geração que conseguiu a proeza de escrever dois livros fundamentais em áreas musicais bem diferentes: "Rip It Up and Start Again", sobre pós-punk, e "Ecstasy: Into the World of Techno and Rave Culture", sobre a cultura rave.Já citei aqui muitas vezes o ótimo blog dele, blissout.blogspot.com, e sempre acompanho seus textos nas várias publicações em que colabora. Até que, nesta semana, li na "Word" (de junho -desculpe o atraso) a resenha que Reynolds fez para o primeiro álbum dos Ting Tings, "We Started Nothing".Ele defende a tese, amplamente xerocada no Brasil, que só a primeira faixa, "Great DJ", é ótima. O restante fica no mais ou menos. Para isso, gastou 871 palavras (esta coluna tem 300) e citou nada menos do que 16 bandas e artistas. Isso tudo para escrever sobre um disco que só tem uma música boa...À medida em que avançava no texto, eu pensava: como é possível levar música pop tão a sério? Para quem esse cara acha que está falando? Quem entende tantas referências? Caímos no de sempre: críticos que sabem demais escrevem para outros críticos, para músicos e nerds de música. E ainda tem gente que se importa.

Do mestre Álvaro Pereira Júnior na Folha de São Paulo da última segunda-feira