29/09/10

«Lola» de Brillante Mendoza é cinema a céu aberto

Uma vez, há alguns anos, um rapaz moçambicano que trabalhava na Cinemateca de Lisboa me disse que Juventude em Marcha de Pedro Costa era um filme para ser visto com camisa de forças, num cinema lotado e apertado no meio de uma fileira completamente cheia de pessoas, sem chance de escapatória possível. Me lembrei das suas sábias palavras quando vi o último filme do filipino Brillante Mendoza. 




Lola é um destes filmes, negro, grandioso e do qual é mais muito mais fácil fugir do que enfrentar. O filme conta a história de duas avós, uma à procura de enterrar o neto assassinado a outra de redimir o neto que perpretou o crime. O destino das duas avós se cruza e afecta a vida de todos à volta. 
Mas isso é mera desculpa para Brillante filmar, num tom quase documental, a dureza de se viver em Manila - capital das Filipinas -  e fazer um filme político, subversivo, a céu aberto (literalmente: chove o tempo todo) e discutir o valor da vida (e dos mortos).
Assistir Lola na sala escura é como segurar a respiração debaixo d'água pelo maior tempo possível para depois emergir aliviado, deixando para trás aquele cenário cruel que insistentemente volta a ecoar na memória após a projecção. As imagens de Manila são uma experiência visual maior que a vida e, por isso mesmo, maior que cada uma daquelas tristes personagens que improvisam dentro do seu universo caótico.

27/09/10

Melhores músicas de 2010 (parte 14) - Warpaint «Elephants»



Descobri as norte-americanas Warpaint através daquela lista com as 50 melhores novas bandas que o semanário NME fez há algumas semanas. A banda, que a Wikipédia define como um grupo que faz art rock experimental, são uma das mais interessantes promessas desse ano. A banda é composta pela vocalista Emily Kokal , Theresa Wayman (voz e guitarras),  Jenny Lee Lindberg (baixo e voz), e Stella Mozgawa na bateria. 
O single Elephant - carro chefe do disco que sai a 25 de Outubro próximo - já começa arrepiando com a sua letra pontiaguda «I'll break your heart / to keep you far from where / all dangers start» e faz lembrar um bocado as outras talentosas do Electrelane
E a julgar pelas belíssimas músicas disponíveis no seu MySpace e pelas recentes companhias (elas têm excursionado com os ingleses The XX pelos Estados Unidos) as Warpaint têm tudo para trilharem um belo futuro pela frente. 

20/09/10

Lost in Translation (3) - The Kids Are All Right em Portugal



A Castello Lopes acaba de divulgar o trailer do fabuloso The Kids Are All Right que estreia em Portugal no próximo 04 novembro. O filme, que foi uma verdadeira sensação na última Berlinale, vencendo o Teddy Bear, ganhou um título em Português digno da série «lost in translation»: Os Miúdos Estão na Boa. Mas o filme de Lisa Cholodenko é tão bom que nem o título dado pela Castello Lopes consegue ofuscar as suas (muitas) qualidades. Prometo falar mais sobre o filme em breve.

14/09/10

Porque «Do Começo ao Fim» deve ser o pior filme do ano

Quando os créditos finais deste Do Começo ao Fim chegaram ao fim eu quase saí correndo da sala antes mesmo de as luzes se acenderem. O meu constrangimento, talvez por ser brasileiro, era tanto, que saí da sala no mais absoluto silêncio. Parecia aquela fatídica sessão de Turistas, há quatro anos, nos cinemas nefastos do Colombo.
Vi o filme em Berlim há alguns meses, numa sala lotada de um festival que já não me lembro do nome e antes do filme começar, entrou um homenzinho careca de microfone na mão para fazer uma pequena introdução ao filme. Ele explicou aos presentes, que o filme "tinha dado o que falar" no Brasil e que foi alvo de muitos boicotes por parte dos defensores da boa conduta moral por aqueles lados. Coisa impensável num país com tantos corpos à mostra, os alemães devem ter pensando. Mas depois da introdução inflamada do homenzinho, quem já estava curioso para ver o tal filme ficou em pulgas. Eu incluído.


Indo direto ao ponto: «Do Começo ao Fim» é um filme fetichista, ridículo e inofensivo. É um videoclipe homoerótico de hora e meia com objetivo único de fazer barulho. Tudo aqui soa falso e inverossímil. Desde a mise-en-scène artificial aos diálogos mecânicos e canastrões.
O filme é suposto ser uma história de incesto, sobre dois irmãos que se apaixonam, mas aqui o conflito foi jogado para um canto. Se existiu mesmo polêmica, esta se deu simplesmnete pelo facto de que desde o começo nós (espectadores) sabemos que eles são irmãos. Só nós, porque os protagonistas e todo o resto do elenco parecem ignorar este detalhe por completo. A simbologia fraternal aqui é um mero detalhe.  Não existe questionamento aos valores morais, às convenções sociais (familiares e religiosas), nada. Tudo se resume a um banal conto erótico de amor entre dois homens bonitos e saudáveis.
O diretor, Aluízio Abranches, disse numa entrevista que não queria fazer política nem se posicionar moralmente sobre o tema e que seu filme é "pós-tudo". Mas ao se desvencilhar da responsabiliadade (e da oportunidade) de fazer um filme "político" ou uma abordagem mais complexa, Abranches faz um filme que é "pós-nada". Pois o seu filme levita num vazio de ideias ocas e, como disse João Nunes - crítico do Correio Popular -  está mais para um "comercial de margarina" que para qualquer outra coisa.
O filme abre o 14º Queer Lisboa o festival de cinema gay e lésbico de Lisboa, que começa já na próxima sexta-feira no cinema São Jorge.

13/09/10

Duas ou três coisas sobre «The Suburbs» (e o vídeo interativo)

1- Que uma banda estrear sua discografia já quebrando tudo com um disco como Funeral cause um certo trabalho em administrar as expectativas alheias para com os álbuns futuros, é perfeitamente compreensível. Mas daí quando estas eternas expectativas são razão de comparação ad aeternum... tem uma hora que isso cansa, minha gente. Eu achei que já tinha ficado bem claro com Neon Bible há três anos: que os Arcade Fire não vão fazer outro Funeral. Simples assim. E a vida continua.


2 - Eu até pensei escrever algo sobre o disco mas para quê gastar meus dois solitários neurônios, se a Lídia já sintetizou tudo o que eu penso sobre o disco aqui? Se bem que o Zeca Camargo tem muita razão aqui também.

3 - Sobre o (já famoso) vídeo interativo de We Used To Wait (comentado aqui e aqui) devo dizer que com endereços brasileiros (e berlinenses, porque a lei alemã não permite) o vídeo não fica tão bacana por causa das fracas imagens de satélite mas, com qualquer endereço de Lisboa, o vídeo fica perfeito. 
O quê? Você não mora e nem nunca morou em Lisboa? Não sabe o que está perdendo.

07/09/10

O remake de «Let The Right One In» estreia em Outubro


Estou muito curioso para ver o remake norte-americano do chatíssimo filme sueco Deixa-Me Entrar (ou Deixa Ela Entrar no Brasil) que estreia em Portugal dia 14 de Outubro ao mesmo tempo que a estreia nos Estados Unidos. A direção é do talentoso Matt Reeve (que dirigiu Cloverfield há dois anos) e no papel da garotinha protagonista está a (outra talentosa) Chloe Moretez, que deu vida à irmã guru de Tom em 500 Days of Summer e estourou agora como uma das protagonistas em Kick-Ass. As poucas reações que saíram na imprensa lá fora dizem que o filme é verdadeiramente assustador. Esperemos que sim, porque o original parecia que estava mais empenhado em curar a insônia. A intelligentsia cinéfila que me perdoe.

05/09/10

Da série "pessoas que não sabem a hora de parar": Rita Lee


Até fora do Brasil já falam das mensagenzinhas de efeito que a Rita Lee anda postando no seu Twitter. Li na revista Blitz que suas mensagens andam causando "furor" no Brasil, divertindo uns e escandalizando outros. A revista fez um best of das suas mensagens:

"Tem gente que pensa que todo artista é rico. Numa época eu até fui, mas fumei, cheirei e bebi tudo. Hoje moro no mato e 'trampo' para pagar as contas." 

"Certa vez uma senhora elegante me disse que minhas músicas eram perfeitas para serem ouvidas num motel . Desconfiei que ela falava de si própria quando levava garotinhos para fazerem coisas que o Papa não aprovaria."

Eu fico me perguntando se as pessoas ficam mesmo chocadas com estas baboseiras que a Rita Lee cospe todos os dias no Twitter (e desde que se entende por gente, penso eu) ou se a nossa inércia é tanta que passamos a achar que isso é realmente relevante e digno de nota. Um longo bocejo para você, Rita.

04/09/10

«Moon» uma bela surpresa ignorada nos cinemas


Fui ver ontem Moon por pura falta de opção (de filmes legendados nas salas berlinenses) e fiquei incrivelmente surpreendido. Sam Rockwell é Sam Bell, um funcionário contratado pela Lunar Industries enviado à lua com um contrato de três anos a fim de extrair e estudar uma substância que produz energia para a Terra. Perto das últimas semanas do fim do contrato Sam sofre um acidente no qual as consequências irão mudar para sempre a sua vida.
Prosseguir com a história sem revelar dados importantes para o seu desenvolvimento (e a sua surpresa) é praticamente impossível (e por isso recomendo que NÃO vejam o trailer cheio de spoilers) então paro já por aqui. Moon é um tour de force de Sam Rockwell, que é o único protagonista e que carrega o filme todo nas costas. Kevin Spacey faz a voz do Robô Gerty fazendo nos lembrar a todo momento o aterrorizante HAL 9000, o robô cheio de más intenções do clássico 2001 - uma odisseia no espaço do mestre Kubrick. 
O filme é do estreante Ducan Jones, filho de David Bowie e vi que vai estar na retrospectiva "Um Ano de Cinema" que o cinema King vai promover de Setembro a Outubro. A não perder. 

Os Guns N' Roses e a (merecida) chuva de garrafas em Dublin



Axl Rose e a sua Guns N' Roses (quem?), muito provavelmente a banda mais asquerosa de todos os tempos,  foram escorraçados sob uma chuva de garrafas d'água num concerto em Dublin ontem a noite. Se isto não é a melhor notícia desde que o mesmo aconteceu com o Carlinhos Brown no Rock In Rio em 2001, é porque não há mesmo justiça no mundo.

Nota: Esta postagem foi publicada no blogue ontem e, por lapso, apaguei sem querer. Volto então a republicá-la

Melhores músicas de 2010 (parte 13) - Yeasayer "Madder Red"



Comecei esta lista «melhores músicas de 2010» na minha página no Facebook de acordo com as canções novas que eu ia descobrindo ao longo do ano e agora passo a publicar aqui também, quando possível, com os vídeos originais. Para quem quiser ver os vídeos anteriores, segue os links:

12 - Janelle Monáe - TightRope
11 - Arcade Fire - Ready to Start
10 - Sleigh Bells - Rill Rill
09 - Kelis - Acapella
08 - Arcade Fire - The Suburbs
07 - Céu - Grains de Beaute
06 - LCD Soundsystem - Dance Yrself Clean
05 - Caribou - Odessa
04 - Darwin Deez - Radar Detector 
03 - Delphic - Counterpoint
02 - Hot Chip - Take It In
01 - Charlotte Gainsbourg - La Collectionneuse

03/09/10

O bom mocismo de «Brothers» o último filme de Jim Sheridan



Jim Sheridan é um homem que faz filmes cheio de boas intenções. Mas como reza o chavão, de boas intenções o inferno está cheio. Meu Pé Esquerdo abusava da sacarina mas era um belo drama, Em Nome do Pai era maniqueísta mas tinha o poderoso e denso romance do Humerto Eco por trás e Na América um belíssimo conto moral sobre uma família que resolve começar sua vida do zero. Todos eles bons filmes, munidos das melhores intenções, mas que na hora de decolar, voaram baixo e ficaram aquém do que prometiam.
Quero com isto dizer que Sheridan faz filmes medíocres? Nada disso. Sheridan é homem talentoso mas que tem um medo absurdo do risco. Seus filmes jogam sempre pelo seguro, têm sempre uma causa social ou política por trás e talvez este seja o maior problema da sua filmografia: começam com uma boa premissa e acabam resvalando para o bom mocismo.
Em Brothers a coisa não é diferente. Tommy Cahill (Jake Gyllenhaal) e Sam Cahill (Tobey Maguire) são irmãos. Sam é um homem de família, orgulho do pai e casado com sua namorada do secundário, Grace (Natalie Portman), com quem tem duas filhas. Tommy é o filho rebelde, passou os últimos meses na prisão por assalto à mão armada e é liberado pouco tempo antes da partida de Sam para o Afeganistão. Semanas depois da sua partida Grace recebe a notícia de que Sam foi morto em combate. Tommy e Grace então se tornam próximos e daí nasce um relacionamento amoroso. Até que um belo dia, Tommy - que está vivíssimo da silva - volta para casa e o caos se instala.
Com uma premissa destas era impossível fazer um filme mediano. Mas Sheridan não soube explorar a tensão que o trailer sugeria, e desperdiça tempo na relação de Grace e Tommy, e depois num triâgulo amoroso insípido e sem interesse algum. Não existe tensão alguma, as disputas de poder e território entre os irmãos é jogada para um canto e o filme se arrasta por quase duas horas sem grandes novidades. Sheridan está mais interessado em contar uma outra história. A história que corre em paralelo quando Tommy estava no Afeganistão e foi dado como morto mas, quando decide contá-la, o filme já está pela metade. E aí é tarde demais para recuperar o tempo perdido e principalmente, o nosso precioso interesse.

01/09/10

Coisas que aprendi vendo filmes de época


Acabei de assistir ao insosso Young Victoria e fiquei aqui pensando como os filmes de época seguem um mesmo padrão narrativo. Parece que saíram todos do mesmo manual de regras. Desde adaptações da Jane Austen à biografias históricas. É tudo igual: os mesmos clichês, os mesmos diálogos e as mesmas variações de caráter distribuídas entre meia dúzia de personagens. Se um ET caísse na terra agora e só tivesse filmes de época para aprender uma coisa ou outra sobre a humanidade, eis o que ele iria descobrir:

1- Que pessoas que se interessam por política são moralmente dúbias ou são vilões.
2- Que todo mundo é superficial e que jantares sociais só servem a um único propósito: sentar a língua na vida alheia.
3- Que factos históricos são um mero detalhe.
4- Que republicanos são pessoas más e liberais são pessoas boas.
5- Que todo mundo tem de ensaiar exaustivamente os mesmos passos de dança antes de ir a qualquer evento social.
6- Que a libido é uma coisa que só foi inventada no século XX.
7- Que quando você estiver triste ou pensativo, a qualquer momento vai aparecer alguém com chá e bolachas para animar a sua vida.