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06/03/10

Os filmes do Oscar

Os primeiros meses do ano normalmente é sempre bom para quem gosta de bom cinema. É nesta época que as distribuidoras, espertas, lançam seus filmes a espera de um lugar ao sol nos Oscars. Este ano, como em 2009, há muita coisa interessante para se ver nas salas mas sem grandes títulos que possa ser considerado 'imperdível'. E cada vez mais filmes com menos 'cara' de oscar.

Com a excepção de "The Blind State" vi todos os dez nomeados e meu favorito ao prémio principal continua sendo o que menor chances tem de sair com alguma estatueta: "Distrito 9"do estreante sul africano Neill Blomkamp. "Distrito 9" é cinemão disfarçado de série B. Blomkamp (com uma mãozinha de Peter Jackson) recupera o filme de género e tira-o do gueto. E para isso atualiza Cronenberg dos antigos (especialmente 'A Mosca') e faz uma sátira social atual e urgente, sem nunca cair no reducionismo pedagógico. E isto tudo num filme cheio de ação e adrenalina, que não nos deixa respirar um único segundo. Também sou dos que gostaram muito de "Avatar" mas acho que o filme de James Cameron já teve o seu (excessivo) lugar ao sol e ganhar mais prémios seria - já dizia o chavão - como chover no molhado.

Outro filme que eu estava especialmente curioso para ver, principalmente porque Nick Hornby (um dos meus escritores atuais favoritos) adaptou o argumento, era "An Education". Saí tão decepcionado do filme que não acreditava que Hornby tinha realmente escrito um argumento tão pobre e tão banal como aquele. Numa entrevista que encontrei no YouTube ele diz que ficou um bocado nervoso em adaptar a história da jornalista Lynn Barber, principalmente porque a conhecia pessoalmente e porque odiava ter de tirar coisas importantes do livro original (pode-se ler um longo resumo da história - verdadeira - contada pela própria na sua coluna no The Guardian aqui). Já não havia gostado dos filmes anteriores da Lone Scherfig mas este tinha material e muitos bons nomes envolvidos para ser mais um dos seus filmes mediocres. É uma pena que o produto final me fez continuar com a mesma opinião.

"Estado de Guerra" e "Inglorious Basterds" são dois filmes que não me convenceram. E teve tanta rasgaçao de seda entre a crítica (e público) para ambos que estou convencido de que tenho de vê-los novamente para tirar a prova dos nove. Gosto muito de Tarantino e da Bigelow e até acho que estes são dois bons filmes, e seria bom ver qualquer um dos dois com um oscar na mão. Mas, honestamente, acho seria pelos filmes errados.

"Precious" para os cínicos e os detratores de plantão é apenas um melodrama piegas (passe o pleonasmo) financiado - e divulgado - pela Oprah. Na página online do suplemento cultural do Público (o Ipisilón) eu vi o nome da Oprah citado pelo menos umas cinco vezes nos comentários. É fácil abandonar uma sessão de 'Precious' e dizer que é um apenas filme lamechas. Se esquecermos de tudo isto e vermos o filme pelo que ele realmente é, sem fingirmos que aquilo é só ficção (porque nao é) é possível ver que o buraco - fundo e negro - é muito mais embaixo.

Para finalizar, vi ontém "Nine" e "Up In The Air". Do primeiro, quase desisti a meio de tão mau, tão aborrecido e tao pretensioso que é. E olhe que nem sou fã do "Oito e Meio" do Fellini. O segundo é uma comédia simpática com uma boa idéia mas que deixa o filme cansativo depois de quarenta minutos...deste último, nunca me esquecerei de uma piada genial (envolvendo George Clooney, uma comissária de bordo e um jogo de palavras) que quase vale o filme todo.

21/12/09

Em defesa de 'Avatar'

Engraçado como se tem discutido muito onde está o 'cinema' em Avatar. Em quase todas as críticas que li - especialmente na imprensa portuguesa - há uma séria discussão e questionamento se a história que James Cameron quer contar é uma fachada por detrás do 3D. O crítico João Lopes (do DN) levanta questões séríssimas ali no seu blogue sobre o 'futuro do cinema' que já é tão mais velho que o próprio cinema. E num outro blogue que já não me lembro qual vi uma reflexão muito interessante sobre a 'morte' da convencionalidade em se contar uma história em favor das infinitas possibilidades que a 'tecnologia' pode fazer. Pessoalmente, essa discussão me interessa muito pouco. É difícil separar o que é realmente relevante nesta chuva de argumentos e o que só é conservadorismo inconsequente. Luís Miguel de Oliveira fez muita gente discutir - e cair matando - a questão dos óculos (no caso do visionamento em 3D) na caixa de comentários no Ipsilón online e, confesso, isso me dá uma canseira dos diabos. Como diria meu conterrâneo Macunaíma ai, que preguiça! Me lembro que na altura que saiu o 'The Blair Witch Project' (1999) houve - num outro contexto, exactamente o oposto do que se discute aqui - toda uma discussão sobre se 'aquilo' era cinema ou não. Eu vi muito e muito bom cinema em 'A bruxa de Blair' mas sou - do auge da minha reconhecida insignifância - a pessoa menos indicada para tentar discutir uma possível morte do cinema. Acho muito mais válida as discussões em torno das reacções emocionais e sensoriais que o cinema, ou aquilo ao que acostumamo-nos a chamar 'cinema' desperta em mim e nos outros como espectador do que qualquer outra coisa. Acho que essa é a verdadeira e mais importante questão. Fui ver 'Avatar' com algumas expectativas em relação à tudo o que tinha lido, sobre essa tal 'revolução' que Cameron trouxe para o cinema. Meia hora depois, passada a frustração em descobrir que 'aquilo' não era o futuro de coisíssima alguma, me deixei levar pela história do soldado tetraplégico em busca de redenção num mundo completamente desconhecido. A clássica parábola do auto-descobrimento, da viagem interior contada pela enésima vez. Saí da projecção e pouco me lembro do 3D, dos óculos ou da tecnologia 'jamais vista'. Sai de lá sem ter visto nada disso. Nem de uma tal famosa perseguição de 20 minutos me lembro. De facto, a experiência 3D do filme é um espectáculo visual eu diria que quase religioso, é um show à parte. E também que James Cameron tem sim essa maneira maniqueísta e simplória de 'ver o mundo', de contar uma história. Mas acho que é mesmo essa limitação narrativa, essa opção em deixar a subtileza em segundo plano, os dispositivos que jogam a seu favor. No final da projecção, ouvi meus amigos todos falarem em 3D, em tecnologia, e nos malditos óculos. O que eu vi foi um filme majestoso, daquelas aventuras clássicas dispostas a mexer com alguma coisa escondida dentro de cada um ali naquela sala. Mesmo que o cinismo nauseabundo faça bloqueios mentais, 'Avatar' é mais que um simples filme em 3D. É uma experiência sensorial. E quem se deixa levar por ela, tem garantida quase três horas de uma viagem apocalíptica sem volta.