Engraçado como se tem discutido muito onde está o 'cinema' em Avatar. Em quase todas as críticas que li - especialmente na imprensa portuguesa - há uma séria discussão e questionamento se a história que James Cameron quer contar é uma fachada por detrás do 3D. O crítico João Lopes (do DN) levanta questões séríssimas ali no seu blogue sobre o 'futuro do cinema' que já é tão mais velho que o próprio cinema. E num outro blogue que já não me lembro qual vi uma reflexão muito interessante sobre a 'morte' da convencionalidade em se contar uma história em favor das infinitas possibilidades que a 'tecnologia' pode fazer. Pessoalmente, essa discussão me interessa muito pouco. É difícil separar o que é realmente relevante nesta chuva de argumentos e o que só é conservadorismo inconsequente. Luís Miguel de Oliveira fez muita gente discutir - e cair matando - a questão dos óculos (no caso do visionamento em 3D) na caixa de comentários no Ipsilón online e, confesso, isso me dá uma canseira dos diabos. Como diria meu conterrâneo Macunaíma ai, que preguiça! Me lembro que na altura que saiu o 'The Blair Witch Project' (1999) houve - num outro contexto, exactamente o oposto do que se discute aqui - toda uma discussão sobre se 'aquilo' era cinema ou não. Eu vi muito e muito bom cinema em 'A bruxa de Blair' mas sou - do auge da minha reconhecida insignifância - a pessoa menos indicada para tentar discutir uma possível morte do cinema. Acho muito mais válida as discussões em torno das reacções emocionais e sensoriais que o cinema, ou aquilo ao que acostumamo-nos a chamar 'cinema' desperta em mim e nos outros como espectador do que qualquer outra coisa. Acho que essa é a verdadeira e mais importante questão. Fui ver 'Avatar' com algumas expectativas em relação à tudo o que tinha lido, sobre essa tal 'revolução' que Cameron trouxe para o cinema. Meia hora depois, passada a frustração em descobrir que 'aquilo' não era o futuro de coisíssima alguma, me deixei levar pela história do soldado tetraplégico em busca de redenção num mundo completamente desconhecido. A clássica parábola do auto-descobrimento, da viagem interior contada pela enésima vez. Saí da projecção e pouco me lembro do 3D, dos óculos ou da tecnologia 'jamais vista'. Sai de lá sem ter visto nada disso. Nem de uma tal famosa perseguição de 20 minutos me lembro. De facto, a experiência 3D do filme é um espectáculo visual eu diria que quase religioso, é um show à parte. E também que James Cameron tem sim essa maneira maniqueísta e simplória de 'ver o mundo', de contar uma história. Mas acho que é mesmo essa limitação narrativa, essa opção em deixar a subtileza em segundo plano, os dispositivos que jogam a seu favor. No final da projecção, ouvi meus amigos todos falarem em 3D, em tecnologia, e nos malditos óculos. O que eu vi foi um filme majestoso, daquelas aventuras clássicas dispostas a mexer com alguma coisa escondida dentro de cada um ali naquela sala. Mesmo que o cinismo nauseabundo faça bloqueios mentais, 'Avatar' é mais que um simples filme em 3D. É uma experiência sensorial. E quem se deixa levar por ela, tem garantida quase três horas de uma viagem apocalíptica sem volta.
21/12/09
18/12/09
16/12/09
'500 days of Summer'

Li em todo lugar que o estreante Marc Webb subverteu a comédia romântica americana com '500 days of Summer' e levou-a a outro patamar. Eu discordo completamente por uma única razão: '500 days' não é uma comédia. É sim um conto ácido de amor - apesar do narrador anunciar logo no começo que não é - com um pedaço de vidro espetado no coração. Mas não é nunca uma comédia. Quando faz graça, sorrimos amarelo. Aqui não há redenção, não há joguinhos de sedução e não há final feliz. É tudo brutalmente despejado à nossa cara com uma sinceridade tão dilacerante que quando os créditos sobem é muito difícil não verter uma lágrima. Há uma cena em '500 days' que de tão real que é, ficou ecoando na minha cabeça horas depois de ter visto o filme. Na cena, Summer (Zooey Deschanel, linda) está na cama com Tom (Joseph Gordon-Levitt ainda melhor que em 'Mysterious Skin') contando sobre seus ex namorados. 'Mas e aí, o que aconteceu?' Tom pergunta intrigado em saber porque seus relacionamentos não duraram. E Summer com a maior naturalidade do mundo, como que a um nível acima dos pobres mortais que ainda não entenderam essa coisa misteriosa e complexa que são as relações humanas, responde 'o que acontece com todos os relacionamentos: life'. Ouvir isso é como levar uma facada nas costas. E quando vem da boca do seu objecto do desejo, quando a paixão está no seu ápice romântico, é de uma crueldade sem fim. E só quem nunca passou por isso, vê '500 days of Summer' como uma simples comédia romântica. Marc Webb fez um filme sobre o amor e sobre os buracos negros que são os relacionamentos. E ele sabe muito bem do que está falando.
13/12/09
Precious

E como sobreviver a 'Precious' ? Como sair da sala escura e, como disse o Zeca Camargo em seu blogue, saber que há uma ou mais Precious morando não muito longe de você e não fazer nada? Assistir simplesmente ao desfile de horrores como se fosse impossível mudar alguma coisa? Se existir uma palavra no dicionário que identifique o antónimo de 'esperança', é este o sentimento pós 'Precious'.
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