





A nomeação de Danny Boyle para os Oscars, como realizador do filmeSlumdog Millionaire, tem suscitado algum debate de ideias. Como referi em post anterior, há quem considere que a não-nomeação da co-realizadora Loveleen Tandan representa uma forma de discriminação: a crítica Jan Lisa Huttner defende mesmo que é importante fazer pressão sobre a Academia de Hollywood no sentido de alterar a regra (só pode haver um nome nomeado na categoria de melhor realização) que "justifica" tal omissão. Nesse post escrevi:
>>> Tentando contrariar esta lógica, a crítica Jan Lisa Huttner tem chamado a atenção no seu blog The Hot Pink Pen — empenhado na defesa dos direitos de mulheres realizadoras e argumentistas — para o anacronismo da regra, considerando mesmo que se está a perder a oportunidade histórica de nomear a primeira mulher de cor para melhor realização (...) <<<
Estas palavras levaram um dos nossos visitantes, Wellington Almeida, a dirigir-me um mail. Eis a sua argumentação:
>>> Não tenho aqui muito a dizer e nem vou entrar em dissertações sociológicas a respeito das disparidades semânticas que uma palavra possa vir ter e vou directo ao assunto: como grande apreciador dos seus textos — sejam eles peças jornalísticas ou mesmo as "informais" aqui no blogue — acho extremamente perigoso que o senhor use este eufemismo "de cor" para designar a raça "negra". Já há muito tempo muita tinta é gasta sobre este tema (negro? preto?) e nem estou a fazer suposições sobre suas políticas pessoais, mas esta quase que "suavização" da palavra NEGRO torna-se inequivocadamente ofensiva para mim. Quero dizer, estão a perder a oportunidade histórica de nomear a primeira mulher de cor para melhor realização mas...de que cor? <<<
1. Começo por esclarecer que o eufemismo “de cor” não designa a raça “negra”: Loveleen Tandan é indiana e tem a pele castanha. Aliás, num artigo da Newsweek em que é referida a não-nomeação de Tandan como co-realizadora, Ramin Setoodeh escreve uma frase de certeira ironia: “[O filme]Slumdog está cheio de rostos castanhos (brown faces) mas, no palco dos Oscars, praticamente todas as pessoas que forem receber prémios por ele têm rostos brancos.”
2. O “anacronismo da regra” a que me refiro — e que Jan Lisa Huttner aponta — decorre, não da cor da pele seja de quem for, mas apenas do facto de não ser possível nomear mais do que uma pessoa na categoria de melhor realização (mesmo quando, como é o caso de Loveleen Tandan, alguém aparece citado no filme como “co-realizador”).
3. Foi a própria Jan Lisa Huttner a referir-se à situação utilizando a expressão “of colour” (“de cor”). A citação está disponível no IMDb: “Ao longo de 80 anos, apenas três mulheres foram nomeadas para o Oscar de melhor realização — Lina Wertmuller, Jane Campion e Sofia Coppola — e apenas dois homens de cor: John Singleton e Ang Lee, que ganhou por Brokeback Moutain. Se Loveleen Tandan for co-nomeada pelo seu trabalho em Slumdog Millionaire, então será a primeira mulher de cor a ser nomeada para o Oscar de melhor realização e, se ganhar, será a primeira mulher a receber tão grande honra.”
4. O meu texto contém um erro de citação: a expressão “primeira mulher de cor” deveria surgir entre aspas, desse modo remetendo para o discurso de Jan Lisa Huttner.
5. A questão de fundo que se coloca está exemplarmente resumida por Wellington Almeida quando pergunta: “(...) estão a perder a oportunidade histórica de nomear a primeira mulher de cor para melhor realização mas...de que cor?” A resposta directa à sua pergunta é: de cor castanha. Mas, de facto, cada palavra e cada expressão está muito longe de se esgotar no discurso de um indivíduo, seja ele quem for, ou nas suas intenções. Podemos reavaliar a complexidade semântica, simbólica, política e afectiva de tais questões através de um didáctico artigo de William Safire (‘On language; people of color’), publicado em 1988 em The New York Times — depois de comentar as muitas convulsões históricas das expressões que se referem à cor da pele, o autor conclui assim: “Quando usada por brancos, people of color [pessoas de cor] transporta normalmente uma conotação amigável e respeitosa, mas não deverá ser usada como sinónimo de negro [black]; refere-se a todos os grupos raciais que não são brancos.”
6. O meu texto contém um segundo erro, este de avaliação de linguagem. De facto, ao traduzir a expressão em causa (de cor), embora a tenha assumido no sentido que decorre do seu contexto de enunciação (americano), não tive em consideração os inevitáveis efeitos — simbólicos e de leitura — que podem ser arrastados pela passagem de uma língua para outra.
7. Wellington Almeida escreve que não faz “suposições” sobre as minhas “políticas pessoais”. Pelo contrário, creio que o pode e deve fazer, sobretudo quando, como é o caso, tenta fazer algo a que atribuo a máxima importância: a interpretação dos subtextos simbólicos que um discurso — por vezes, uma simples palavra — pode arrastar. Repudio todas as formas de racismo, pelos actos e pela escrita. Mas as declarações de princípio não devem impedir o reconhecimento de erros como aqueles que cometi. Por eles me penalizo, apresentando as minhas desculpas.








OUTRO DIA, sem querer, me vi no meio de um debate sobre crítica de música. Dizia lá um sujeito que crítico bom tem de ter conhecimento técnico. Apesar de eu não me considerar um crítico, só um mero colunista de música e olhe lá, sobrou para mim a defesa da "classe" contra as asneiras que o cara falava. Acho que alguma base técnica é até desejável, mas não essencial.Mais importante é entender da história do gênero musical a ser criticado, saber contextualizar as informações, não manjar só de música, escrever direito, não errar informação etc.Tinha na cabeça, como modelo, críticos da qualidade de um Simon Reynolds, inglês da minha geração que conseguiu a proeza de escrever dois livros fundamentais em áreas musicais bem diferentes: "Rip It Up and Start Again", sobre pós-punk, e "Ecstasy: Into the World of Techno and Rave Culture", sobre a cultura rave.Já citei aqui muitas vezes o ótimo blog dele, blissout.blogspot.com, e sempre acompanho seus textos nas várias publicações em que colabora. Até que, nesta semana, li na "Word" (de junho -desculpe o atraso) a resenha que Reynolds fez para o primeiro álbum dos Ting Tings, "We Started Nothing".Ele defende a tese, amplamente xerocada no Brasil, que só a primeira faixa, "Great DJ", é ótima. O restante fica no mais ou menos. Para isso, gastou 871 palavras (esta coluna tem 300) e citou nada menos do que 16 bandas e artistas. Isso tudo para escrever sobre um disco que só tem uma música boa...À medida em que avançava no texto, eu pensava: como é possível levar música pop tão a sério? Para quem esse cara acha que está falando? Quem entende tantas referências? Caímos no de sempre: críticos que sabem demais escrevem para outros críticos, para músicos e nerds de música. E ainda tem gente que se importa.
Do mestre Álvaro Pereira Júnior na Folha de São Paulo da última segunda-feira

Nunca me interessei pelos Ladytron. Sempre achei o som da banda datado e chato demais. Aí eles editam o soberbo «Witching Hour» e eu mudo radicalmente de opinião. Como era de se esperar, as expectativas para este «Velocífero» eram muito altas. Não consigo passar da segunda audição. Este disco é tão mau, mas tão mau, que eu duvido muito que algum dia perderei meu tempo com esta banda novamente.
A crítica anda celebrando em unânimidade esta volta em grande de Tricky. E com muita razão, pois este deve ser o melhor disco dele desde...desde...«Maxinquaye»! E isto não é necessariamente bom, se pensarmos que numa extensa discografia, podemos salvar dois ou três discos do fogo do inferno. Se não conhecessemos o rapaz muito bem, até poderíamos acreditar que daqui para frente tudo iria correr bem.
Sempre que ouço um disco do Beck é com expectativa zero, por mais que alguém diga que é a solução para a paz mundial. Beck para mim, só fez dois discos dignos de audição: «Odelay» e «Guero» o resto, é resto e não me interessa. Só ouvi uma única vez este «Modern Guilt» atraído pela produção do Danger Mouse e gostei até agora do que ouvi. Beck versão despretensioso e descomplicado.
O jornal britânico «The Guardian» definiu bem este novo disco dos Cansei de Ser Sexy: «CSS pegou sua fórmula única e... deitou-a fora. Tragam de volta os palavrões (...) talvez a idéia seja provar que eles têm mais em comum com as bandas européias do que com os seus conterrâneos, mas não dá para negar que se tornar uma banda indie inglesa mediana é uma maneira meio radical de evitar a comparação com a Tropicália.» Bingo!"...e Gossip, com a tenda em apoteose, a rebentar pelas costuras e perto de uma centena de pessoas a invadir o palco, com muitos abraços à Beth Ditto, que entoou, depois de um delirante «Standing In The Way Of Control» um vitorioso «We Are The Champions», numa celebração rara e inesquecível."
O jornal gratuito Destak sobre o apoteótico e histórico concerto dos Gossip, na tenda secundária do Optimus Alive. Este vídeo foi filmado do palco e dá para ter uma pequena idéia da histeria colectiva que foi o último concerto da digressão da banda.
Vi este trailer no Monumental dia desses e só depois de uns minutos é que caiu a ficha. Ei, é o «Tropa de Elite». Primeiro é a narração canastrona e em inglês americano género "narrador de filme do Van Damme" que não cola. Depois, o Rio de Janeiro que se transforma "na cidade mais perigosa do mundo". E por último, e que talvez é o que mais irrita (e nem gosto tanto assim da fita) é a comparação com «Cidade de Deus» (que a pessoa que legendou para português - e que deve ter passado os últimos 5 anos hibernando na Transilvânia -leu GOLD ao invés de GOD então meteu «Cidade de Ouro» na legenda). Katia Lund, co-autora de «Cidade de Deus» ameaçou processar Braulio Mantovani (que fez adaptação para o cinema de CDD) por plágio na adaptação do «Tropa» portanto, este deveria ser o último gancho para promoção do filme. Isto é, um trailer falso e manipulador, como qualquer um feito por quem não se deu ao trabalho do simples visionamento da fita.
«Há, pelo menos, dois erros fatais no mundo da música. Ou em tudo o que está relacionado com comunicação. O primeiro e mais comum, é aquele que leva a confudirmo-nos com o mercado. Quer isto dizer que somos tentados a pensar que o estimável público tem um gosto semelhante ao nosso. O segundo erro é aquele que nos faz classificar canções ou artistas de acordo com os suportes mediáticos em que surgem. Exemplo: uma canção que faça parte da banda sonora de uma telenovela é automaticamente uma bimbalhice. O resultado destes dois erros costuma ser fatal. Mas eles são também muito mais comuns, e interligados, do que parece. Vem isto a propósito de Amy Winehouse. Mais do que às suas canções, a notoriedade de Amy deve-se às tropelias em que se tem visto envolvida e que são o pão-nosso de cada dia da imprensa tablóide britânica. (...) O certo é que Amy Winehouse ganhou reputação enquanto presença em certos media, como uma espécie de Paris Hilton, e daí se concluir que é uma artista comercialona, capaz de aproveitar a fome insaciável dos malditos tablóides. Estará portanto consumado o segundo erro: ao contrário de se ouvir a música de Amy Winehouse, ela é classificada e provavelmente criticada, pelo seu desempenho quotidiano mais ou menos privado. O contrário também é verdade e acontece quase tantas vezes. Que seria de Björk se, ao invés da capa na revista Wire aparecesse no Daily Mail ou no The Sun? Pior ainda, que era feito da credibilidade indie dos Radiohead se tivessem estado em alta-rotação na MTV desde o início da carreira? (...) O primeiro erro é muito mais fácil de ser diagnosticado. Acontece sem darmos por ele, todos os dias. É fácil, comum, e eu acrescentaria, ordinário. Porque não nos leva a tentar perceber a razão por que os outros gostam tanto daquilo que nós não gostamos. Agora a minha declaração de interesses: eu gosto de Amy Winehouse. Diria mesmo que ela é a maior artista do século XXI. Uma espécie de Keith Richards dos nossos dias, que passou pelas mesmas provações, castigos e desvarios. É sim, é intérprete de uma música que vale toda a pena ouvir. porque não faz parte de qualquer nova tendência inventada por estetas baratos - ou marketeers dispendiosos. Porque é real, autêntica e genuína em toda a encenação de um tempo impossível de se viver hoje. E isso, já se sabe, tem o seu custo por estes dias. obrigado Amy.»
Foi triste e terno, ao mesmo tempo, ver uma jovem cantora no auge do seu talento em progressiva degradação como aquela que vimos ontem. Foi triste porque, apesar de todas as polêmicas em torno da excessiva exposição da sua vida pessoal, Amy confirmou todos os clichês à volta do mito e fez a festa dos seus detratores.
Dói muito dizer isto, mas que grande decepção foi o concerto da linda Chan ontém no Coliseu dos Recreios. O que se ganhou em profissionalismo, perdeu-se naquilo que a felina era melhor: na imprevisibilidade, na química com o público, nas versões melhoradas das suas canções de estúdio. Ontém vimos a menina que chegou à idade adulta, e agora mais segura do seu grande talento, só quer cantar e brilhar. E dá-lhe com o novo «Jukebox» quase na íntegra e de uma assentada só, para logo depois tocar umas versões indigestas de três temas do «The Greatest» («The Moon», «The Greatest» e « Lived in Bars»). Num coliseu esgotado, Chan parecia inquieta, incomodada (abandonava o palco incessantemente para reclamar com o tipo da iluminação) como se tivesse ainda a pagar pelos pecados cometidos com o público português há uns anos am Matosinhos. Sua banda, a Dirty Delta Blues Band cada vez mais se assemelha àquelas bandas que tocam em casamentos com teclados estridentes e músicos virtuosos. E que já se notava desde o àlbum anterior. Seguiu-se então uma versão em castelhano de «Black Angels (Angelitos Negros)» com uma cábula A4 nas mãos e completamente desafinada para acabar em grand finale com «I've Been Loving You Too Long (To Stop Now)» a meio do público entre milhares de vénias e «I love you». Que saudades daquele concerto maravilhoso de dois anos na aula Magna.
O hype em torno deles nas terras da rainha era tão grande que muitos duvidavam que eles fossem capazes de criar um álbum completo. Pois eis que acaba de sair este «We Started Nothing» pela mega Sony. Um início em grande, podem pensar alguns. Mas é precisamente este o problema. Com uma grande major por trás de um projecto que já existia - e muito bem - na cena, digamos "alternativa" londrina, a estréia do duo acabou por sair a meio gás. A pop dancável com piscadelas de olho à indie deu espaço a canções ingénuas e facilmente descartáveis. Da baladinha insossa de «Traffic Light» à afunkalhada e aborrecida «Fruit Machine» (que por momentos lembra Avril Lavigne!) o àlbum tem mais baixos que altos. Apesar destas manchas todas, o disquinho ainda vale pelas já conhecidas pérolas descobertas através do MySpace da banda. O desabafo da loirinha Katie White em «That's not my name» o hit «Great DJ» (que já tem clipe rolando na MTV há um bom tempo), a delícia pop que incita à luxúria em «Shut up and let me go» e o momento mais indie do àlbum, no tema-título, em que a voz da vocalista parece a da sua conterrânea PJ Harvey. Um disco simpático, que talvez faça a banda chegar ao grande público e gozar um pouquinho mais da merecida popularidade.Youtube: That's not my name Great DJ

Fazendo um zapping um domingo destes, dei de caras com a nova aposta humorística da RTP: Os Contemporâneos. Já o primeiro sketch, com o insuportável e insípido Bruno Nogueira, quase me fez mudar o canal mas a piada sobre a menina Madeleine era tão boa que resolvi dar uma chance. Mais do mesmo, como eu já esperava. E o programa até tinha outras piadas boas, como o concurso para avaliação dos Professores, o elevador com excesso de peso... Mas depois - e aqui é aquela parte chata que era inevitável - tudo o que não é genuíno acaba por deixar cair a máscara uma hora ou outra e não há mais nada que o salve do fiasco. Quero dizer, há muitas idéias interessantes por detrás daquilo tudo. Bons actores a dar a cara (Maria Rueff tem talento nato para comédia, Nuno Lopes irreconhecível) etc e tal, mas tem alguma coisa (ou muitas) que no balanço final, não funciona. Não tenho a solução, caso algum indignado me pergunte, mas este é o tipo de humor que se eu quiser ver, basta ligar minha tv em qualquer hora do dia. Com tantos nomes "quentes" nos créditos, era de se esperar algo melhor. É tão cansativo ver aquela tentativa forçosa em fazer humor subversivo (que se resvala para o politicamente correcto alguns minutos depois) passivamente no meu sofá. Aquelas mesmas piadas sobre o PSD, sobre o Benfica, sobre o tema do dia qualquer (e que é matéria-prima nas mãos dos humoristas que estão poraí) já não interessam a mais ninguém. O Herman faz isso, os Gato fedorento, o Inimigo Público, os tipos do Levanta-te e Ri... esqueci de alguém? As vezes fico confuso, é o mercado que está monopolizado? É humor para português ver? O que é certo é que fazer humor sobre nada é mesmo coisa para poucos e eu pagaria para ver. Até lá, vamos nos contentando com estas bobagens.